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29/01/2019 BPO, CRM, Institucional, Pessoas

Pessoas trans vencem preconceito e assumem mercado de trabalho, na PB: ‘invisível para o mundo’

Dia da Visibilidade Trans. Liq tem um projeto junto à Prefeitura de João Pessoa e emprega atualmente dez pessoas trans.

Fonte: Por Dani Fechine, G1 PB

Era uma sexta-feira de manhã quando Alecsander saiu de casa sorrindo e com o coração acelerado. O motivo parece bobo, mas para um homem trans pode significar renascença. “Eu fiquei tão feliz em saber que tinha gente para me escutar hoje”, confessou. Com os documentos todos renovados, Alecsander renovou também a vida. Fala com naturalidade sobre a transexualidade, mas não entende o preconceito. “A gente é invisível para o mundo. Eu só queria ser eu”, declarou Ricardo Alecsander, marcando o Dia da Visibilidade Trans.

Ricardo Alecsander tem 25 anos. É natural de Guarabira, mas mora em João Pessoa, onde está quase concluindo o curso de psicologia, na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), e há um ano conseguiu um espaço no mercado de trabalho. Ele teria todos os motivos para ser uma pessoa rancorosa, se quisesse. Mas escolheu sorrir com facilidade.

Nesta terça-feira (29), comemora-se o Dia da Visibilidade Trans. “Aguentem, a gente tem que ser visto. Isso é um marco muito importante”, declara Alecsander. O dia é comemorado no Brasil desde 2004, com o objetivo de ressaltar a importância da diversidade e respeito para as pessoas trans. Hoje, a data representa a luta dessas pessoas para serem vistas, respeitadas e ouvidas.

“Ser trans, eu sempre fui, apesar de muito tempo eu não ter o conhecimento”, declara. A própria expressão corporal de Alecsander demonstra sua liberdade: gesticula, sorri, fala abertamente, muito, como se precisasse desabafar há muito tempo.

Escolheu estudar psicologia não apenas para entender o outro, mas principalmente para se estudar, para entender o mundo e por que as pessoas não podem ser felizes simplesmente como são. “O mundo deveria ser para todo mundo”, enfatizou. Ele quis entender por que as pessoas se limitam a usar uma parte do corpo para identificar alguém.

“É como se a sexualidade, a identidade, fosse uma partezinha do meu corpo, como se uma parte do meu corpo pudesse falar sobre o meu corpo todo. A gente é humano, isso tudo é quem a gente é, quem a gente aprende a ser”, disse Alecsander.

Sempre teve a consciência que era diferente, como ele mesmo conta. O que Alecsander vivia, enquanto mulher, menina, não era verdadeiro. O que a sociedade tentava impor para ele não fazia nenhum sentido. Mas por medo de ir de encontro a essa imposição e também por medo da rejeição, acabou retardando o momento de fazer a transição. “O mundo não reconhece a gente”, diz Alecsander. E fala não apenas socialmente, mas juridicamente e também como cidadão.

Por exemplo, algo muito simples, como o direito de usar o nome de pessoa trans, é enfrentado com uma enorme burocracia. Uma ação básica para o ser humano foi, para Alecsander, e ainda é para muitos transexuais, um longo caminho. “Por muito tempo eu fui trans, mas eu vivo como trans só agora”, disse.

Mas para a família, Alecsander ainda é uma menina que se veste como homem. Mora com a mãe, a irmã, o sobrinho e um tio. Todos o chamam pelo nome que tinha antes da transição. Referem-se a ele como “ela”, sempre no pronome feminino. “A gente precisa desempenhar papéis que são aceitáveis pela sociedade. Se eu não cumpro esse papel, eu sou excluído, então eu não sirvo para sociedade”, destaca.

O que a sociedade acolhe como entendimento é aquilo que pode ser visto através do corpo. Se as expressões são delicadas, os seios são fartos e os cabelos maiores, aquela pessoa é uma mulher. Mas se as imagens começam a confundir a rotulação, o que é estranho passa a ser questionado. “O trans todo dia é questionado. O cis [aquele que assume a sua identidade de nascença] ninguém discute, ninguém questiona”, disse Alecsander.

Por muito tempo, Alecsander foi, de fato, uma menina lésbica. Sem muito entendimento do que aconteceu com o seu corpo, e com as mudanças que surgiam, mas que não deveriam fazer parte daquele corpo, foi vivendo para ser aceito dentro e fora de casa.

A estranheza com o próprio corpo data da adolescência, quando precisava ir para aula de educação física e tinha vergonha de si mesmo. Foi a primeira vez que frequentou um psicólogo e ouviu perguntas como: “você tem vergonha das suas coxas?”. Na verdade, não era exatamente vergonha. Alecsander só não sabia porque os hormônios provocavam no seu corpo uma mudança que não se encaixava na sua identidade.

Foi quando não suportou mais atuar na sua própria vida real que Alecsander decidiu dar o primeiro passo para ser quem, de fato, nasceu para ser. Há dois anos faz a terapia de hormônios. Já tem barba, a voz já engrossou um pouco, mas a remoção das mamas ainda não conseguiu. “Você finge o tempo todo ser o que as pessoas querem que você seja, até que chega um ponto que você diz: por que eu tenho que ser um ator e não posso ser o artista?”, se questionava.

“É básico do ser humano querer ser amado, ele precisa dessa proteção afetiva”, diz Alecsander, homem trans.

‘Todo ser humano deveria ser amado’

Alecsander já se vestia com o que a sociedade entende por roupas masculinas. “Isso sempre foi de boa para mim”, era algo natural, ele explica, era como se sentia confortável. Mas começou a se permitir mais. O desconforto com os olhares tortos sempre existiu, mas se permitiu ser ele mesmo.

Começou com a mudança no nome dos documentos. “É uma dor muito forte para a gente não ser reconhecido pelo nome, é algo fundamental ser reconhecido pelo gênero, ser tratado como ‘ele’, Alecsander, sou eu”, declara o jovem.

O sofrimento começa com a falta de entendimento com o próprio corpo. Mas quando a descoberta da identidade vem à tona, a vontade de mostrar ao mundo quem, de fato, se é, se potencializa. “Desde o início a gente sofre com isso”, por isso preferiu aguardar, ir levando, para só depois viver a vida que nasceu para ter.

Apesar de algumas expectativas quebradas com a terapia hormonal, Alecsander está feliz. Olha para o espelho e pensa “você é lindo, você é maravilhoso”. “É recompensador a pessoa olhar para você e dizer que admira quem você é, admira sua coragem”, desabafa.

Ter uma identidade ou um CPF com o nome que escolheu ter e que representa sua identidade não é um privilégio. As pessoas trans buscam pela naturalidade de colocar estampado nos documentos o nome da pessoa que nasceu para transgredir. E, por incrível que pareça, esse ainda é um problema pequeno diante de algumas dificuldades que Alecsander, e outros tantos transexuais, encontram.

Apesar de ter o cartão do SUS já com o seu nome, ele sofre para receber atendimento. Com corpo de mulher, mas nome e gênero masculinos, Alecsander não encontra um local que forneça uma ultrassom transvaginal, por exemplo, para um homem. “No SUS não existe a categoria trans. O exame é negado. Eles precisam colocar feminino”, conta. Há essa luta para existir juridicamente, socialmente e até na saúde.

Não à toa, escolheu os nomes com base em alguns significados. Ricardo Alecsander. O primeiro pela afirmação da masculinidade, já que não há a expressão do nome no gênero feminino. O segundo, pela fluidez e fortaleza. “Carrega o próprio significado de guardião da humanidade, eu acho isso tão lindo. Eu queria ter tanta coisa para poder mostrar ao mundo. Todo ser humano deveria ser amado. O ser humano tem muito potencial e eu acredito muito nisso”, explica.

Transformando medo em coragem

Alecsander resume a sua trajetória em coragem. Para ele, só quem tem coragem é quem tem medo. Assume-se como um medroso. “Hoje não tenho medo mais de afirmar que eu tenho medo. Na minha vida inteira, muito tempo eu fui medroso, e ainda sou”. Mas hoje não vive pelo medo, vive pela coragem. É a partir do medo que ele consegue evoluir. Se não houvesse o medo de ser quem é, não teria a coragem suficiente para enfrentar a dura barreira de ser ele mesmo.

Apesar do medo, não sofre violência física. Mas é alvo de violência psicológica, chacotas e expressões que buscam a todo momento diminuir a pessoa que é. “O trans ainda é invisível”.

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